Exposição Pau Ferro
Texto curatorial
Três artistas de lugares, idades e poéticas diferentes se encontraram em Itu desde julho para mergulharem em seus processos criativos. A experiência não foi exatamente uma residência, nem um grupo de estudos e tampouco um curso. Durante o programa, convivemos intensamente por 48 horas a cada mês. Envoltos em discussões sobre temas culturais, históricos e ambientais, os artistas foram aprofundando as análises sobre seus próprios trabalhos, assim como os intercâmbios com os companheiros de jornada.
Consuelo Veszaro, Giovanna Pizzini e Marco Gonçalves vieram com expectativas particulares. Alguns pressupostos foram questionados. Algumas rotas foram revistas. Algumas certezas foram derrubadas. As derivas foram ricas, assim como as trocas foram generosas. Foi bonita a festa.
O que esses artistas apresentam aqui não é, necessariamente, um resultado. Melhor seria chamar os trabalhos de encounter specific - sim, acabo de criar um neologismo, e ainda por cima em idioma hegemônico! Já temos assunto para mais uma conversa, com sorte tão proveitosa como as que tivemos no decorrer do Programa Pau Ferro. Intercâmbios que rendiam sempre perspectivas inesperadas, muitas vezes com contribuições de convidados igualmente não programados. O que importa é que os trabalhos estão em estado de exposição, mas os processos seguirão acontecendo. Outros trabalhos brotarão a partir daí. Muitas de nossas discussões se deram tomando a impermanência e a ausência de certezas como pano de fundo. Essa qualidade única - a transformação em latência - é uma das características mais apetitosas do fazer artístico.
Do interesse de Marco Gonçalves pelo tempo impresso na rocha à disposição de Consuelo Veszaro de desafiar o limite entre estabilidade e colapso, passando pelas peles e entranhas que Giovanna Pizzini investiga, cada artista inventou sua própria maneira de elaborar o que vimos, vivemos e elaboramos. Até aqui.
Há caminho adiante, mesmo que nossos encontros mudem de forma. Por ora, nos cabe apreciar a vista deste trecho da estrada.
Sylvia Werneck
Marco Gonçalves
As fotografias de pedaços de varvito “individualizam” a rocha que essencialmente cumpre uma função de piso na comunidade ituana. Fotografadas dessa maneira, destacadas do mundo ordinário, ganham um caráter de objeto de apreciação, de admiração por suas formas peculiares, próprias de uma rocha sedimentar. Oferecem ao observador a possibilidade de encarar e serem encaradas pelos que não a percebem no cotidiano – ganham agência. O douramento parcial de sua superfície lhes dá, simbolicamente, nobreza. O registro sonoro feito em uma manhã de sol na cava em que foi explorado por séculos alude a uma nova condição histórica, distante do ambiente de degradação humana e natural que vivenciou no passado. Hoje, seu locus emula dignidade e serenidade.
Consuelo Veszarro
Meu processo criativo dentro do programa pau ferro foi alimentado tanto pelas experiências vividas na proposta de imersão e convivência quanto por um mergulho subjetivo e reflexivo em minhas próprias vivências. O que mais se destacou nos trabalhos que trago para essa mostra se relacionam com o mergulho, a subjetividade, o sensível e um certo equilíbrio que dialoga com a gravidade.
Giovanna Pizzini
As obras que apresento fazem parte do Projeto Pau Ferro, onde eu e meu grupo tivemos a oportunidade de visitar locais de importância histórica, artística e ambientalmente na cidade de Itu e arredores, mediadas pelas orientadoras, Raquel Fayad e a curadora Sylvia Werneck.
Dois dos lugares que mais me chamaram a atenção foram o Parque geológico do varvito e o Instituto bubonem. Durante as visitas, fiz conexões com questões históricas, psicológicas e sensoriais, que me influenciaram durante a imersão. A partir dessas experiências, algumas palavras surgiam em minha pesquisa e análise sobre a vivência, a primeira palavra que surgiu foi caverna (que seria um símbolo universal de origem, nascimento e de iniciação através do renascimento) e a segunda, primitivo (que é o primeiro a existir; que coincide com a origem de algo; inicial, primevo, original).
A partir das simbologias associadas a essas palavras, novas perguntas surgiram, então decidi focar minha pesquisa e obras em uma experiência sensorial e psicológica para o espectador. Correlacionar essas investigações ao estudo das materialidades que pesquiso como o Scoby (cultura simbiótica de bactérias e leveduras), a argila e a planta carnívora nepenthes, das quais faço associações a processos dialéticos do corpo, vida, morte e origem.
Utilizei materiais como argila para desenvolver obras táteis, que podem ser observadas, tocadas e sentidas pelo espectador. Proponho um diálogo sobre o que o espectador sente ao experimentar a obra e qual é o significado do encontro, como sugere o título da obra. Assim como em "Encontro", a obra "Conjunções do vazio" foi realizada com tinta de terra, carvão e giz pastel seco (outro mineral). Na mediação, proponho relacionar os materiais utilizados, as formas, cores e texturas.
Na obra "Coabitar", proponho uma reflexão sobre o título e o material fotografado. Afinal, o que é o Scoby (cultura simbiótica de bactérias e leveduras) e o que o espectador vê na imagem impressa em voil?
Sobre a obra "Psique", proponho uma experiência olfativa e visual, com uma fotografia submersa no chá de kombucha. Algumas perguntas que podem ajudar na interação com a obra são: O que você vê? O que esse cheiro te lembra? Você se sente confortável perto da obra? Ela causa alguma emoção em você?
A instalação "Aquilo que está entre" utiliza todos os materiais que fazem parte da minha pesquisa, como scoby seco, argila e a planta carnívora nepenthes, além de materiais que provocam simbologias e analogias, como vidro e água.
A iluminação na obra é importante, proporcionando pontos de reflexão, projeção e iluminação. Dessa forma, o espectador pode se movimentar pela instalação, analisando-a na totalidade, assim como os detalhes. Algumas perguntas que podem ajudar na mediação são: quais são os materiais utilizados na obra? Quais são as possíveis simbologias? O que é aquilo que está entre?
Sendo assim, as obras podem ser experienciadas pelos sentidos de formas diferentes, possibilitando o espectador a imergir ou não, conforme for sua escolha.
A exposição estará em cartaz até 25 de novembro de 2023.
Curadoria: Sylvia Werneck
Produção e Montagem: Equipe EE
Fotos: Sara Zizuino